domingo, 19 de outubro de 2008

Raciocínio ilógico

7 salas perdidas no meu sonho. esquecido.
regras que insisto em quebrar. por norma.
amigos que sigo vendo. ocasionalmente.
angústias da minha vida. indecisões.
querer ir mais além. sempre.
não conseguir ir mais além. quase sempre.
analisar-me. diariamente.
sem descanso. é difícil simplificar quando não se tem tempo ou dinheiro.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

A dança das traças

A praça cheira a cimento molhado.
Perdi o teu cheiro nesse alcatrão
da rua lavada de sonhos
e mágoas que apertam o chão
e esmagam as minhas veias
crivadas de vidros e
pragas caem dos céus
quando grito o teu nome
nas igrejas que ecoam
a minha vontade
de ir não voltar
deste lugar que suga
a alma dos que bailam
sozinhos na praça.
Sozinho na praça
da cidade esquecida
giro e giro até cair,
por ti.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

A psicologia dos dentes

Não às 12.15h, mas uma hora mais tarde, eis senão quando nos deparamos com uma notícia inesperada. Duas até. Nem Emília era tão rapina, nem nós tão desproporcionais em relação ao espaço que a natureza nos deu para crescer. "Ele tem espaço" disse ela. E os olhos incharam-me de alegria e orgulho. "Esse não é o problema". Então qual era? O de sempre, estavam a tentar sobrepôr-se a nós. Dentes outros teimavam em ocupar o espaço reservado a um e só um: o Ciso. Esta consulta no entanto, serviu para tomarmos consciência das nossas imperfeições. Sim, temos pequenas cáries a tratar e sim, temos uma arcada desalinhada em relação à qual não faremos nada. O que me individualiza jamais será encarado como uma imperfeição.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Emília Falcão, a dentista

Sexta-feira, 29 de Agosto, 12:15h. É esta a hora insólita que escolheram para nos separar. Privando-nos de mais uma refeição juntos. Chacoteando do nosso direito de saciar o desejo de peixe com legumes e vinho branco. Como uma presa, esperamos que a ave de rapina caia sobre nós, me abra a boca e te arranque de mim, com as suas penas enojando-me a língua.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

A iminência da separação

Tudo nos soube diferente a partir daquela hora. A certeza da separação ganhava forma num buraco profundo de ausência. Sentíamos sentimentos antes de os termos por direito. Antecipávamos o momento da separação e o sofrimento que nos causaria. Bebíamos ao mesmo tempo para comemorar e para adormecer.

Separação adiada

Como em tudo na vida, temos dificuldade em separarmo-nos do que sempre esteve próximo de nós. Ainda que seja um dente que nos provoca dor. Foi por isso que hoje cheguei à casa irritado, mas a sorrir. Ainda não nos tinham separado, mas estará para breve.

O ciso

Aqui começamos. Aqui comemos. Aqui bebemos. Cortamos as unhas dos pés e colocamo-las cuidadosamente dentro de copos de iogurte que acabámos consumir. Sem medo, seguimos. Mesmo que amanhã tenhamos que arrancar dentes que aprendemos a respeitar pela dor que nos provocaram. A vida é bonita, é cheia de nitidez e brilho, não há que duvidar.